A ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, intensificou nas últimas semanas suas articulações com lideranças da ala progressista do Partido Democrata. Essa movimentação é parte de uma estratégia para preparar uma nova candidatura à presidência em 2028, além de buscar a reconstrução de relações com setores mais à esquerda da legenda.
Recentemente, Kamala teve uma conversa reservada com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Durante essa comunicação, que ocorreu na quinta-feira, 2, eles discutiram o futuro do Partido Democrata e combinaram uma conversa mais longa. Além disso, os dois trocaram mensagens ao longo dos últimos meses, reforçando o diálogo entre eles.
A ligação de Kamala para Mamdani aconteceu dois dias após candidatos apoiados por ele vencerem três disputas para o Congresso em Nova York, derrotando parlamentares que buscavam a reeleição.
No mês de abril, Kamala se reuniu com a deputada Alexandria Ocasio-Cortez durante a conferência Power Rising, em Chicago. Ao longo do último ano, a ex-vice-presidente e sua equipe ampliaram o diálogo com ativistas pró-Palestina, incluindo o Uncommitted Movement, um grupo que se posiciona contrariamente à política do ex-presidente Joe Biden em relação à guerra em Gaza. Em 2024, representantes desse movimento afirmaram que a campanha de Kamala havia recusado o pedido para que um palestino-norte-americano discursasse na Convenção Nacional Democrata.
Na última semana, em Detroit, Kamala se encontrou com Abbas Alawieh, cofundador do Uncommitted Movement e candidato democrata ao Senado estadual de Michigan. Durante a reunião, Alawieh expressou sua oposição ao uso de forças norte-americanas para causar danos a civis e comunidades inteiras. Ele destacou que muitos da comunidade que representa perderam familiares em ataques aéreos israelenses apoiados pelos Estados Unidos.
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Além de Alawieh, Kamala também conversou com James Zogby, um defensor de longa data dos direitos dos palestinos e membro do Comitê Nacional Democrata. Entretanto, tanto Zogby quanto os porta-vozes de Kamala e Mamdani não comentaram sobre os detalhes dessas conversas.
A ex-vice-presidente também discutiu temas variados com ex-assessores e outros membros do Partido Democrata, incluindo questões relacionadas à China, inteligência artificial e a situação na Venezuela.
Apesar de sua reaproximação com a ala progressista, parte da esquerda dos EUA ainda critica Kamala, especialmente por sua posição considerada pró-Israel durante a campanha de 2024. Na Casa Branca, ela defendia maior diálogo com movimentos que se preocupam com a situação dos palestinos em Gaza. Em seu livro “107 Days”, publicado em 2025, Kamala mencionou ter solicitado a Biden um maior reconhecimento da dor dos civis mortos em Gaza, afirmando que suas declarações eram insuficientes.
Mesmo com a reaproximação, muitos ativistas permanecem céticos. A estrategista palestino-norte-americana Rania Batrice questionou: “Por que deveríamos confiar nela agora?”. Ela ressaltou que, caso a mudança de postura seja genuína, Kamala tem a oportunidade de demonstrá-la.
No entanto, o estrategista democrata Patrick Gaspard elogiou a preocupação de Kamala com a falta de empatia em relação aos palestinos, afirmando que ela busca ouvir opiniões que vão além das apresentadas pelo Departamento de Estado e pela Casa Branca.
Kamala Harris aparece como uma das principais candidatas nas pesquisas iniciais para as prévias democratas de 2028, mas enfrenta resistência entre setores da esquerda, do centro e entre doadores. Nas prévias de 2020, ela apoiou propostas mais progressistas, como o Medicare for All, do senador Bernie Sanders, mas na campanha de 2024 adotou posições mais moderadas. Se confirmar sua candidatura, ela deverá enfrentar uma disputa acirrada pela indicação do Partido Democrata. Apesar das incertezas quanto à sua capacidade de vencer uma eleição presidencial, Kamala continua sendo uma das favoritas nas primeiras sondagens para a corrida de 2028, mantendo forte apoio entre o eleitorado democrata, especialmente no Sul dos Estados Unidos.

