Groenlândia: EUA planejam controle do Ártico para conter China abre a discussão sobre a estratégia norte-americana de anexar o território dinamarquês e, assim, assumir o comando das rotas marítimas que poderão ligar a Ásia à Europa com o derretimento do gelo polar, segundo especialistas em geopolítica.
Groenlândia: EUA planejam controle do Ártico para conter China
Analistas ouvidos por Agência Brasil afirmam que Washington enxerga a Groenlândia como peça-chave para impedir o avanço chinês no Oceano Ártico. O major-general português Agostinho Costa ressalta que os Estados Unidos já dominam o Pacífico e o Atlântico, mas ainda têm “presença residual” no polo norte. “É uma política voltada ao bloqueio da China: falta controlar o Ártico”, explica o ex-vice-presidente da Associação EuroDefese-Portugal.
O interesse norte-americano ganhou força após projeções de que o derretimento das calotas polares reduzirá custos de frete na região nas próximas décadas. Observações da NASA indicam queda de 13% no gelo marinho por década, enquanto o IPCC prevê um Ártico possivelmente sem gelo entre 2050 e 2070.
Com 80% do comércio mundial transportado por navios, a rota mais curta entre Ásia e Europa no polo norte poderia baratear a navegação em mais de um terço, destaca o cientista político Ali Ramos, autor de estudos sobre a Ásia. Ele lembra que a Rússia, parceira estratégica de Pequim, mantém o dobro de bases da Otan no Ártico, reforçando a corrida por influência na região.
Em documento de 2024, o Departamento de Defesa dos EUA classificou o Ártico como crucial para “conter concorrentes” e citou a cooperação sino-russa como motivo para uma nova abordagem estratégica. A Rússia possui 54% da linha costeira do oceano, posição que, segundo o analista Lee Mottola, pode garantir vantagem econômica caso a Rota Marítima do Norte se consolide como corredor global.
No mesmo sentido, Ramos argumenta que Pequim busca alternativas aos gargalos controlados por Washington nos estreitos de Malaca e Gibraltar. A Groenlândia, com apenas 56 mil habitantes e status semiautônomo dentro do Reino da Dinamarca, tornaria-se ponto avançado para operações militares e de vigilância, caso anexada pelos Estados Unidos.
Desde que iniciou seu segundo mandato, o presidente Donald Trump tem reiterado publicamente a intenção de incorporar a ilha. Ele alega que navios russos e chineses circulam “por toda a costa” e classifica a aquisição como vital para a segurança nacional. A proposta, porém, enfrenta resistência de parceiros europeus, que veem a medida como retrocesso ao modelo de “pirataria” e controle de mares dos séculos XV e XVI, observa Agostinho Costa.
A relevância do tema aumenta à medida que estudos climáticos indicam mudanças irreversíveis no polo norte. Caso a nova rota seja efetivada, controle territorial e capacidade bélica serão determinantes para ditar tarifas, acesso e influenciar diplomacia global.
Para saber como esta disputa pode afetar acordos comerciais e a política externa, acompanhe outras análises em nossa editoria Internacional.
Crédito da imagem: Kevin Lamarque/Reuters
Fonte: Agência Brasil
