A fundação que leva seu nome confirmou a morte nesta quinta; causa não foi divulgada. Jornalista e ativista, ela denunciou o sexismo nos anos 1960 e marcou gerações.
A jornalista e referência do movimento feminista Gloria Steinem morreu aos 92 anos, informou a fundação que leva seu nome em comunicado divulgado nesta quinta-feira (3). A nota não especificou a causa da morte.
Steinem começou a carreira jornalística no início da década de 1960, em um período em que muitas mulheres ainda precisavam da permissão do marido para abrir uma conta bancária. Nessa fase, ela se infiltrou no clube Playboy e publicou uma reportagem investigativa sobre o sexismo enfrentado pelas garçonetes conhecidas como “coelhinhas”.
Ao longo das décadas seguintes, Steinem participou ativamente da organização do movimento de mulheres. Na mesma trajetória, ela ajudou a fundar a revista Ms. e o National Women’s Political Caucus, além de ter organizado a primeira Conferência Nacional de Mulheres, em Houston, na década de 1970. Durante anos, ela viajou pelos Estados Unidos e por diferentes países para participar de conferências e protestos.
Em suas memórias e textos, Steinem relatou marcantes episódios pessoais que informaram seu ativismo. Segundo ela, o despertar feminista ocorreu durante uma reunião em 1969, quando um grupo de mulheres passou a falar abertamente sobre a experiência do aborto. Sobre esse momento, ela escreveu mais tarde na New York Magazine:
“Isso deu sentido à minha própria experiência. Eu tinha feito um aborto e não tinha contado a ninguém”
Steinem também contou que o médico que realizou seu aborto em 1957, em Londres, quando o procedimento ainda era ilegal, fez com que ela prometesse duas coisas: “Primeiro, você não contará meu nome a ninguém. Segundo, você fará o que quiser da sua vida.”
Após a decisão da Suprema Corte dos EUA que, em 2022, revogou a proteção estabelecida pela Roe v. Wade de 1973 ao direito ao aborto, Steinem reafirmou sua posição sobre o tema, observando que:
“Proibir o aborto não elimina sua necessidade. Apenas proíbe sua segurança”
Em 2019, ao comentar o papel das pessoas mais velhas no ativismo, ela disse à AFP:
“Acho que o papel de pessoas mais velhas como eu é ter esperança, porque nos lembramos de quando as coisas eram piores”
Em comunicado, a fundação que leva seu nome ressaltou o legado e a personalidade de Steinem:
“Os quase 100 anos de Gloria foram anos bem vividos, e ela continuou trabalhando pela igualdade até o fim”
“O maior dom de Gloria era sua capacidade de ouvir os outros, de fazê-los sentir-se vistos e ouvidos. Gloria viveu fiel ao seu espírito independente, sempre curiosa e com um grande senso de humor”
Figuras públicas também se manifestaram lembrando a influência de Steinem. A ex-secretária de Estado Hillary Clinton a elogiou como uma pioneira que “abriu portas não apenas para si mesma, mas para milhões de mulheres” e afirmou que “seu ativismo era fundamentado no otimismo”.
Gloria Steinem deixa uma trajetória marcada por reportagens investigativas, organização política e reflexões públicas sobre direitos das mulheres, sexualidade e poder. Seus textos e sua atuação ajudaram a moldar debates que seguem presentes nas agendas políticas e sociais contemporâneas.
