O debate sobre a escala 6×1 domina a política brasileira, mas especialistas alertam: menos horas de trabalho não significam mais riqueza. O verdadeiro motor do salário é a produtividade.
A discussão sobre a escala 6×1 ressoa fortemente no cenário político e econômico brasileiro. Essa proposta é considerada perfeita em termos políticos, pois é uma questão palpável e emocional, que os trabalhadores sentem na pele a cada semana, sem a necessidade de gráficos para entender. Para fins eleitorais, é uma estratégia impecável. Contudo, o problema é que essa medida não aborda os reais determinantes do padrão de vida do brasileiro.
O aumento do salário real não ocorre por decreto ou simplesmente pela redução da jornada de trabalho, mas sim pela produtividade. E, para incrementar a produtividade, é necessário um conjunto de fatores: capital, tecnologia, qualificação e um ambiente institucional que não penalize quem decide investir. Infelizmente, esses aspectos fundamentais não estão sendo discutidos com a mesma intensidade que a escala 6×1.
Para compreender por que a produtividade no Brasil está aquém dos padrões internacionais, basta observar a carga tributária do país, que representa 33% do PIB. Isso significa que um terço de toda a riqueza gerada está, obrigatoriamente, direcionada ao Estado. Idealmente, esses recursos deveriam ser investidos em áreas como infraestrutura, educação, saúde e segurança, que são fundamentais para elevar a produtividade da economia como um todo. Contudo, o Estado brasileiro se revela um agente de baixa produtividade, operando sem os incentivos que garantem eficiência no setor privado.
“Quando um terço da economia está alocado em um ente que não precisa ser produtivo para sobreviver, o resultado é um retorno medíocre sobre um volume enorme de capital.”
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Esse cenário provoca um retorno insatisfatório sobre o capital investido, e o restante da economia, que não está alocado no Estado, precisa lidar com um ambiente de juros estruturalmente altos, consequência de um desequilíbrio fiscal crônico, além de enfrentar insegurança jurídica e instabilidade regulatória. Tudo isso cria um ambiente desfavorável ao investimento.
Apesar de os problemas estruturais do Brasil serem evidentes há bastante tempo, o governo ainda opta por simplificar a economia e buscar soluções superficiais para melhorar seu desempenho. A escala 6×1 é mais uma medida que, ao invés de simplificar, pode engessar e encarecer o mercado de trabalho. O que os gestores ainda não perceberam é que a economia tende a encontrar o caminho de menor resistência. Assim, quando o custo de contratação formal se eleva além do que o negócio pode suportar, os empregadores não fecham, mas migrarão para a informalidade.
Atualmente, cerca de 40% da força de trabalho já está na informalidade. Aumento dos custos de contratação pode afastar ainda mais trabalhadores do sistema que se pretende proteger. O trabalhador brasileiro merece mais do que apenas um dia a menos de trabalho por semana. É necessário um cenário econômico com juros que não inibam o investimento, educação que realmente ofereça oportunidades e um Estado que corresponda àquilo que cobra. Esse é o debate que o país precisa urgentemente enfrentar. A escala 6×1 é apenas um sintoma; a verdadeira doença é outra.
Henrique Torrescasana Trevisan, economista, sócio da Bateleur e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE), ressalta a importância de um debate mais aprofundado sobre esses temas.
