Levantamento em registros do TSE até 30/9 aponta que 98 empresários ligados a clubes de tiro e fabricantes/importadores de armas doaram ao menos R$ 1,2 milhão a campanhas. 28 sócios registraram candidaturas e metade está filiada ao PL.
Investigação com base em registros oficiais mostrou que empresários vinculados a clubes de tiro e empresas que fabricam, vendem ou importam armas e munições doaram pelo menos R$ 1,2 milhão a candidatos nas eleições deste ano. O cruzamento de dados considerou doações registradas no Tribunal Superior Eleitoral até 30 de setembro.
Ao todo, 98 empresários ligados ao mercado de armas teriam feito repasses a 96 candidaturas. Além disso, 28 sócios e administradores desse universo registraram candidaturas próprias; metade desses concorrentes está filiada ao PL. Entre as posições buscadas por esses sócios estão deputado estadual (17), deputado federal, vice-governador e 1º suplente de senador.
Entre os candidatos que receberam doações provenientes desse grupo estão parlamentares conhecidos que disputam a reeleição: Nikolas Ferreira (PL-MG), Kim Kataguiri (Missão-SP) e Julia Zanatta (PL-SC). Zanatta recebeu R$ 5 mil; os outros dois deputados aparecem com valores inferiores a R$ 400. O levantamento aponta que os maiores volumes chegaram a filiados ao PL (R$ 420 mil), ao Republicanos (R$ 153 mil) e ao Novo (R$ 133 mil). Essas três legendas concentram quase 60% do total de R$ 1,2 milhão registrado.
O montante apurado neste ciclo eleitoral é menor que o observado em 2022: naquela eleição, 118 empresários do setor haviam doado R$ 2,69 milhões a 126 candidatos.
O cruzamento incluiu todas as empresas com registros no Exército relacionadas a clubes de tiro, fabricantes, vendedores e importadores de armas e munições, e foi confrontado com a base da Receita Federal para identificar sócios e administradores. Desde 2015, a legislação proíbe doações diretas de pessoas jurídicas a campanhas eleitorais; hoje, o espaço de financiamento por esse setor tem sido ocupado por pessoas físicas.
A doação de campanha, prevista em lei, não implica irregularidade por si só, mas especialistas ouvidos destacaram que os repasses podem indicar setores que serão defendidos por candidatos eleitos.
“O lobby parlamentar visa prioritariamente à aprovação de projetos de lei que flexibilizem o comércio, ampliem o porte de armas para categorias funcionais, diminuam tributos e reduzam o controle estatal sobre os clubes de tiro. Apoiar candidatos alinhados garante uma bancada ativa e comprometida com a ampliação contínua das garantias econômicas e operacionais do setor”.
Em outro trecho, a mesma especialista também alertou sobre riscos quando recursos públicos são direcionados sem transparência.
“Uma coisa é a atuação política legítima no processo legislativo, outra, completamente diversa, é o desvio de emendas públicas para custear campeonatos privados ou pagar serviços de clubes particulares sem concorrência transparente”.
Um outro analista ressaltou a mudança na forma de participação do mercado desde a proibição de doações empresariais em 2015 e avaliou que proprietários e executivos passaram a doar como pessoas físicas, encarando isso como um investimento estratégico.
“Desde a proibição de doações de pessoas jurídicas, donos e executivos das grandes indústrias, além de empresários de clubes de tiro, continuam doando como pessoas físicas. Eles encaram essas doações como investimento estratégico”.
O caso envolvendo a destinação de emenda parlamentar de R$ 800 mil (posteriormente ampliada para cerca de R$ 999 mil) por uma deputada federal para a prefeitura de São José (SC) para contratar um clube de tiro para treinamentos da Guarda Municipal também foi mencionado no levantamento. Uma auditoria do Tribunal de Contas de Santa Catarina apontou indícios de direcionamento na contratação; a prefeitura negou irregularidades e disse ter seguido a legislação. Na época, a deputada afirmou que a destinação da emenda atendeu a exigências legais e que manteria investimentos em treinamentos e na aquisição de armamentos.







