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Política

Eleições expõem como a ordem simbólica divide a sociedade

Rafael Ramos
De Rafael Ramos
Publicado: 16/08/2026
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Eleições expõem como a ordem simbólica divide a sociedade
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Durante as eleições, a confusão entre política prática e política simbólica torna-se mais evidente. O filósofo D. C. Schindler alerta para a tensão entre ordem simbólica e ordem diabólica, que redefine convívio e poder.

A política, entendida como a arte de organizar a vida em comum, enfrenta um desafio significativo: a confusão entre a política, com ‘p’ minúsculo, e a Política, com ‘P’ maiúsculo. Em meio a eleições, estratégias e disputas por cargos, a necessidade de refletir sobre os fundamentos da convivência humana se torna mais urgente.

O filósofo D.C. Schindler, em sua análise sobre a crise da liberdade moderna, introduz a distinção entre a ordem simbólica e a ordem diabólica. Essa abordagem não se limita a uma visão religiosa, mas propõe duas maneiras distintas de compreender a convivência entre os indivíduos.

A verdadeira ordem política é, antes de tudo, simbólica. Ela se baseia em vínculos que não são frutos da vontade ou do interesse, mas sim de realidades recebidas. O símbolo, conforme explica Hans-Georg Gadamer, remete à antiga tradição grega, onde um objeto partido em duas partes representa uma aliança. O reencontro dessas partes revela uma amizade e hospitalidade que antecedem qualquer cálculo.

Paul Ricoeur, em sua obra A Simbólica do Mal, aprofunda essa ideia, ressaltando que o símbolo não é um mero sinal, mas uma parte essencial da realidade que representa. Ele comunica verdades de forma única e insubstituível.

Retornando à etimologia, a palavra ‘símbolo’ deriva do grego ‘symballein’, que significa reunir, enquanto seu oposto, ‘diaballein’, refere-se a separar. Essa distinção revela uma das intuições mais profundas da filosofia política: toda comunidade autêntica baseia-se em realidades que não foram escolhidas, como a família ou a pátria, que precedem qualquer escolha racional.

No entanto, a política contemporânea parece corroer esses vínculos. Muitas elites dirigentes governam não em busca de um bem comum, mas cultivando antagonismos. A sociedade, em vez de ser composta por cidadãos, se fragmenta em identidades concorrentes, fazendo com que a política se torne a administração de hostilidades permanentes.

Esse cenário paradoxal gera uma necessidade de uma autoridade central mais poderosa, capaz de mediar conflitos exacerbados. Assim, a fragmentação social se transforma em uma técnica de governo, onde a política deixa de buscar a concórdia entre cidadãos livres.

Um exemplo dessa dinâmica é o conservadorismo popular representado pelo bolsonarismo, que, apesar de suas falhas, mantém uma memória da ordem simbólica. Seus adeptos reconhecem a importância de laços familiares, comunitários e nacionais, considerada uma herança recebida e não apenas uma construção administrativa.

Essa percepção, embora muitas vezes rudimentar, preserva uma verdade antropológica que parece invisível para muitos pensadores contemporâneos: a sociedade não é apenas uma coleção de grupos, mas um conjunto de vínculos que moldam a convivência.

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