Vitória dos democratas nos EUA aliviou tensões geopolíticas e reduziu pressão sobre o dólar nesta quarta. No Brasil, investidores seguiram cautelosos e o real subiu menos que outras moedas emergentes.
Após subir em três pregões seguidos e atingir o maior fechamento do ano na terça-feira, o dólar à vista recuou frente ao real nesta quarta-feira (04), acompanhando o comportamento global da moeda americana. A vitória do Partido Democrata nas eleições parlamentares de meio de mandato nos Estados Unidos foi vista como um limitador ao voluntarismo do então presidente Donald Trump e mostrou potencial para reduzir as tensões geopolíticas, inclusive no Oriente Médio.
O real, no entanto, avançou menos que outras divisas de mercados emergentes. Investidores mantiveram postura cautelosa diante da expectativa por sinais sobre a política econômica do governo Lula 4 e pela próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom). A forte queda do petróleo — mais de 8% ao longo da tarde — também ajudou a reduzir o preço do dólar, pela menor percepção de risco, apesar de atuar contra os termos de troca do país exportador de petróleo.
Depois de uma alta pontual no início da tarde, quando chegou a R$ 5,4985, o dólar firmou-se em terreno negativo nas últimas horas de negócios e terminou o dia em baixa de 0,65%, a R$ 5,4518. A moeda americana acumulou alta de 0,14% nos três primeiros pregões de novembro, após ganhos de 9,04% na última semana de outubro — a maior valorização semanal desde outubro de 2008, no auge da crise financeira global.
Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora, destacou a importância da decisão do Copom diante do debate público sobre propostas de redução forte da taxa Selic para estancar o crescimento da dívida pública. A avaliação ressaltou a necessidade de cautela do banco central.
“O mercado vai se assustar se o Copom continuar a cortar os juros mesmo com a alta do dólar e a piora das expectativas de inflação. O mais recomendável é adotar uma pausa agora, já que há muita dúvida sobre o compromisso do governo com um ajuste fiscal”.
Apurou-se que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará um pronunciamento em cadeia nacional neste fim de semana, no qual deve reforçar o compromisso com a busca das metas fiscais, mesmo ao cumprir promessas de campanha que impliquem aumento de gastos. Essa expectativa pode ter contribuído para que o dólar se aproximasse das mínimas da sessão à tarde.
Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, avaliou que a cautela prevaleceu e impediu um alívio mais expressivo do real frente aos pares.
“A cautela ainda predomina, com o mercado à espera das medidas de ajuste fiscal e do nome do novo ministro da Fazenda. Isso impediu um alívio mais expressivo do real, que não conseguiu acompanhar os pares”.
O Banco Central informou que o fluxo cambial foi positivo em US$ 4,498 bilhões na semana passada, com entradas líquidas de US$ 6,427 bilhões pelo segmento comercial e de US$ 3,070 bilhões pelo canal financeiro.
Sérgio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, comentou a leitura dos números do comércio exterior e do canal financeiro.
“Os exportadores aproveitaram a forte desvalorização cambial para internalizar recursos. O saldo positivo no canal financeiro pode ter refletido, ao menos parcialmente, o interesse de estrangeiros em aproveitar a desvalorização dos ativos domésticos”.
Goldenstein acrescentou que a forte depreciação do real na semana anterior refletiu, principalmente, o aumento dos prêmios de risco, a desmontagem de posições compradas na moeda brasileira no mercado de derivativos da B3 e a maior demanda por proteção cambial.
