Ao falar, parte do som chega aos nossos ouvidos por vibrações nos ossos; nas gravações essa via some, e por isso a voz parece diferente. O estranhamento é comum e natural.
Quando pergunto a alunos de cursos de oratória e a ouvintes das minhas palestras quem não gosta de ouvir a própria voz gravada, a maioria levanta a mão. Essa reação é comum, e a razão é simples: ao falar, nós ouvimos a voz também pela ressonância das vibrações nos ossos e tecidos da cabeça. Na gravação, essa participação óssea desaparece, e essa diferença faz com que a voz gravada nos pareça estranha.
Por ser uma forma diferente da que estamos acostumados, o estranhamento é natural. Para as outras pessoas, porém, esse choque não existe, porque elas sempre ouviram nossa voz de forma mais próxima daquela registrada. Com o tempo, muitas pessoas vão se acostumando e se familiarizando com o som da própria voz, passando a aceitá-la com mais naturalidade.
A percepção da voz não depende só das cordas vocais. Vários fatores influenciam como a voz é percebida, e um deles é a reverberação do ambiente. Em uma conversa relatada com o cantor Eduardo Araújo, o maestro Ray Conniff teria revelado um truque prático para reduzir a reverberação de salas inadequadas: pedir que soltassem balões de gás em vários pontos do teto. Segundo esse relato, os balões ajudavam a amortecer o som e melhoravam o resultado em apresentações.
Na maior parte dos casos, a voz pessoal é melhor do que se imagina. Muitas vezes a reclamação sobre a própria voz vem justamente de quem, ao falar, demonstra uma sonoridade agradável. Quando há problemas mais claros de ressonância ou timbre, a recomendação é procurar um fonoaudiólogo: com exercícios adequados, em muitos casos os resultados aparecem em pouco tempo.
Uma peça publicitária antiga ilustra como a percepção da voz faz parte de um conjunto mais amplo. Em um anúncio de xampu, uma modelo aparecia com voz esganiçada, o que surpreendeu o público. Mais tarde, em outra peça, a mesma personagem dizia:
“Ei, ei, você se lembra da minha voz? Continua a mesma, mas os meus cabelos, quanta diferença!”
Na sequência, a mulher surgia com tom mais melodioso:
“Quando os cabelos são lindos, tudo é lindo numa mulher.”
O exemplo mostra que a beleza da voz deve ser avaliada dentro de um contexto mais amplo. Líderes políticos, por exemplo, muitas vezes arrebataram plateias com discursos eloquentes mesmo tendo vozes com qualidade discutível; a personalidade e a presença compõem a percepção do público. Jânio Quadros foi lembrado como um dos grandes oradores da política brasileira, mesmo com voz roufenha; Leonel Brizola conquistou sucesso na oratória sem ter um timbre considerado admirável. Um exemplo atual citado é o presidente Lula: o texto afirma que sua voz é bastante desagradável e que ela foi se deteriorando ao longo dos anos, possivelmente em razão dos inúmeros pronunciamentos públicos e de problemas de saúde. Ainda assim, esses aspectos não impediram trajetórias políticas exitosas.
Antes de se censurar por ouvir a própria voz gravada, vale analisar se não se trata apenas de uma avaliação equivocada — ou se o timbre particular não funciona como marca registrada na maneira de se expressar.
