Mais que ideologias, suas escolhas refletiram fisiologismo e busca de governabilidade. Vindo das oligarquias nordestinas, Sarney priorizou influência e manutenção do poder.
Para responder se o ex-presidente José Sarney era de direita ou esquerda, é preciso abandonar uma visão rígida do espectro ideológico e olhar para o funcionamento do fisiologismo na política brasileira. Sarney não se encaixa perfeitamente em nenhum dos extremos. Ele representa, por excelência, o político de centro que toma decisões mais pela manutenção da governabilidade e da influência do que por adesão a cartilhas ideológicas estritas.
As raízes de Sarney estão no conservadorismo e nas oligarquias tradicionais do Nordeste. Ele iniciou a carreira na União Democrática Nacional (UDN), um partido de direita marcado pelo moralismo e pelo antagonismo a movimentos trabalhistas nas décadas seguintes. Na fase inicial, mesmo pertencendo à chamada “Bossa Nova” da UDN, sua ligação com pautas conservadoras era clara.
Com o golpe de 1964 e a instauração do bipartidarismo, Sarney encontrou espaço na Aliança Renovadora Nacional (Arena), legenda que sustentou politicamente o regime militar. Sob esse guarda-chuva, ele se consolidou como governador do Maranhão e depois como senador. Durante os anos de chumbo, atuou como articulador civil do regime e presidiu o Partido Democrático Social (PDS) na fase final da ditadura.
Até o início da década de 1980, classificá-lo como um político de direita, alinhado ao establishment conservador e autoritário, é a leitura mais direta: sua base eleitoral dependia do controle da máquina pública estadual e do coronelismo regional, características comuns às frentes conservadoras no interior do país.
O cenário muda no começo dos anos 1980. Em 1984, Sarney lidera uma dissidência dentro do PDS diante da tentativa de impor um candidato pelo aparelho militar e ajuda a fundar a Frente Liberal. Filiado ao PMDB, torna-se vice na chapa de Tancredo Neves. Com a morte de Tancredo antes da posse, Sarney assume a Presidência da República e conduz o país no processo de redemocratização (1985-1990).
No governo, adota postura de centro: precisa acomodar demandas sociais após anos de ditadura e, ao mesmo tempo, acalmar setores conservadores e as Forças Armadas. Seu mandato foi marcado por planos econômicos heterodoxos, como o Plano Cruzado, e pela promulgação da Constituição de 1988, que teve forte caráter progressista e social-democrata e foi sancionada por ele sob forte pressão do Congresso.
Após deixar a Presidência, Sarney consolida-se como cacique do PMDB no Senado e se transforma em operador central da governabilidade, o núcleo do chamado “Centrão”. A partir da década de 1990, sua atuação se descola de rótulos ideológicos rígidos: apoia reformas econômicas do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e, anos depois, também se aproxima do Partido dos Trabalhadores, sustentando governos de centro-esquerda. Essa capacidade de transitar entre projetos revela que a principal bússola de sua carreira foi a preservação do poder e da influência política.
Em resumo, Sarney teve origem na direita conservadora e apoio ao regime militar, mas migró para o centro durante a redemocratização e se consolidou como peça-chave do fisiologismo brasileiro, capaz de articular apoios a diferentes governos para garantir a permanência política de seu grupo.
