Confrontos públicos permitem comparar trajetórias, avaliar propostas e cobrar respostas sobre decisões passadas. Eles rompem o discurso controlado das campanhas e ajudam o eleitor a distinguir competência e coerência.
Publicado em 20/10/2026. Os debates eleitorais continuam sendo um instrumento central para a formação da vontade do eleitor. Em uma democracia, a escolha de um candidato não pode se resumir apenas à identificação ideológica ou à rejeição do adversário; ela também precisa se basear na capacidade de apresentar propostas claras, defender ideias com coerência e responder por decisões passadas.
O confronto público tem papel importante: permite comparar trajetórias, avaliar argumentos e identificar contradições que a propaganda e a comunicação controlada das campanhas costumam esconder. Por isso, mesmo em tempos de polarização, os debates permanecem necessários como espaço de comparação e escrutínio.
O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, realizado no último domingo, foi, sob muitos aspectos, lamentável. Em vez de um confronto de ideias compatível com os desafios do país, prevaleceram acusações, provocações e tentativas de desqualificação recíproca. O espetáculo oferecido ao eleitor ficou aquém do que se espera de candidatos que pretendem conduzir os destinos do Brasil.
No entanto, seria um erro concluir que episódios desse tipo tiram a utilidade dos debates. A pobreza do confronto apenas mostra o quanto é urgente recuperar esse espaço de discussão pública, onde candidatos deveriam estar sujeitos ao escrutínio dos cidadãos e obrigados a explicar propostas e escolhas com clareza.
Há uma dimensão particularmente frustrante nesse episódio: fragilidades expostas pelos dois candidatos, se tivessem sido evidenciadas em debates no primeiro turno, poderiam ter provocado reflexão mais profunda do eleitor e até influenciado votos. A ausência dos dois principais candidatos nos debates do primeiro turno impediu que parte do eleitorado tivesse acesso, em tempo oportuno, a esse confronto direto.
Quando candidatos evitam se expor justamente no momento em que o eleitor precisa compará-los, a democracia perde a chance de qualificar a escolha popular. Questionamentos sobre preparo, coerência, capacidade de argumentação e disposição para enfrentar temas difíceis são elementos relevantes para qualquer decisão eleitoral.
O problema de dialogar, porém, não é exclusivo das campanhas. O Brasil parece ter perdido, aos poucos, a capacidade de ver no adversário alguém com quem seja possível divergir sem transformar toda discordância em hostilidade. Essa deterioração decorre em parte da descrença gerada por sucessivos escândalos, promessas não cumpridas e da sensação de que a política se distancia dos problemas concretos da população.
Soma-se a isso a lógica do “quanto pior, melhor”, explorada por lideranças neopopulistas que encontram vantagem eleitoral na ampliação dos conflitos, na deslegitimação das instituições e na manutenção de uma sociedade dividida. Nesse cenário, o diálogo deixa de ser uma virtude democrática e passa a ser visto, equivocadamente, como sinal de fraqueza.
Por isso os debates eleitorais ainda valem a pena: não porque resolvam sozinhos a crise de representação, mas porque preservam a possibilidade de cobrar explicações, confrontar ideias e exigir responsabilidade pública. Se até mesmo os debates têm sido incapazes de cumprir plenamente essa função, a resposta não é abandoná-los, e sim exigir que sejam melhores. Quando a política deixa de dialogar, perde o país inteiro — não apenas o eleitor que se decepciona ou o candidato que se expressa mal.
