Uma operação da Polícia Civil resgatou 39 pessoas de uma clínica de reabilitação localizada na cidade de Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, na última quarta-feira, 22 de julho. O local é alvo de investigações por suspeita de envolvimento em duas mortes, tortura e maus-tratos.

As investigações em relação a clínica privada Terra Santa Videira foram iniciadas após dezembro de 2025, quando um paciente foi encontrado queimado no local e precisou ser socorrido para uma unidade de saúde.
Relatos de ex-internos abordam sessões de tortura com choques e palmatória. O gerente do espaço foi preso.
A clínica Terra Santa Videira se apresenta como uma clínica de reabilitação para dependência química, com tratamentos conduzidos por especialistas. Segundo o local, mais de 300 famílias já foram acolhidas.
Onde fica a clínica?
O espaço fica na cidade de Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, e os familiares dos pacientes pagavam cerca de R$1,2 mil de mensalidade.

O dono do local foi identificado como Moisés de Jesus Leal e o gerente como Charles Vinicius Souza da Silva Almeida.
Interno foi queimado e morreu
Geovane Santana Lopes foi encontrado queimado dentro da clínica em 31 de dezembro de 2025. Na época a instituição informou que ele havia causado as próprias queimaduras, versão que foi contestada pela família.
Durante as apurações, a família de Geovane recebeu alertas para não procurar mais a unidade, pois havia fatos ainda não esclarecidos sobre o caso.
Após ser encontrado com diversas queimaduras, Geovane foi socorrido para uma unidade de saúde, onde recebeu tratamento até o dia 4 de maio deste ano, quando sua morte foi confirmada.

Iago Marquês Formiga, monitor assassinado
Morte do monitor da clínica
Apenas cinco dias após a morte de Geovane, um homem que trabalhava como monitor da clínica, Iago Marques Formiga, desapareceu. Ele era ex-paciente do local e, após concluir o tratamento, passou a trabalhar no espaço.
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O corpo de Iago foi encontrado 10 dias depois, carbonizado em uma área nas margens da BA-530, e, Camaçari, cidade que também fica na região metropolitana.
Segundo o delegado Marcos Laranjeira, responsável pelo caso, há participação direta da clínica nos homicídios de Iago e Geovane.
“Temos vasta prova testemunhal, em depoimentos do inquérito policial, que apontam a autoria do responsável pela clinica e do gerente neste sentido”, contou.
Para a advogada da família de Geovane, Daniele Barbosa, os crimes podem estar interligados.
“A família se atentou, porque Iago era monitor de Geovane. Chamou atenção ao ver na reportagem que Iago, monitor de Geovane, foi encontrado morto com o corpo carbonizado logo após a morte de Geovane”, disse.
Após as mortes serem registradas, ex-internos da unidade relataram casos de maus-tratos na clínica.
O delegado Marcos Laranjeira afirmou que as sessões de tortura costumavam acontecer em um cômodo afastado, chamado pelos responsáveis pela clínica de “quarto do amor”. Lá, os internos eram colocados de cabeça para baixo e recebiam descargas elétricas. “Nas torturas eram usadas uma palmatória e uma colher de plástico sólido, que os internos disseram que causava muita dor física”, contou.
Ex-internos deram depoimentos
Ex-internos ainda disseram que presenciaram agressões e intimidações, e que os pacientes eram dopados, ameaçados e submetidos a trabalhos forçados.
O gerente do estabelecimento, Charles Vinícius, teve um mandado de prisão cumprido durante a ação. Um mandado de busca e apreensão contra ele também foi cumprido em uma residência em Monte Gordo, no município de Camaçari, que também fica na Região Metropolitana de Salvador.
Outros mandados de busca e apreensão foram cumpridos nos seguintes endereços:
- na sede da clínica, em Candeias;
- na filial da clínica, em Monte Gordo;
- na casa do dono da clínica, Moisés de Jesus Leal, no bairro do Cabula, em Salvador.
O dono do estabelecimento não foi encontrado durante a ação. Não há mandado de prisão contra ele.
Clínica estava irregular
Segundo a polícia, a clínica estava irregular, sem autorização de funcionamento da vigilância sanitária, nem do Corpo de Bombeiros.
Os pacientes foram levados para a delegacia, onde passaram por exames de corpo de delito e deram depoimentos.
Quem é o dono da clínica?
Moisés de Jesus Leal é o proprietário da clínica Terra Santa Videira, localizada em Candeias, na Região Metropolitana de Salvador (RMS). O estabelecimento passou a ser alvo de investigações da Polícia Civil da Bahia após a confirmação de duas mortes, além de denúncias que envolvem maus-tratos, agressões, ameaças, tortura e cárcere privado no local.
Moisés é ex-dependente químico de cocaína e fundou o espaço voltado para o acolhimento e tratamento de pessoas com dependência em drogas e álcool. No entanto, seu nome passou a figurar no centro de inquéritos policiais após episódios graves virem à tona em maio de 2026, envolvendo um paciente e um funcionário da unidade.
Durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão na residência de Moisés, localizada no bairro do Cabula, em Salvador, as equipes policiais não o encontraram no local. Na ocasião, os agentes apreenderam um celular e um computador para análise pericial.
A Polícia Civil da Bahia também apura possíveis vínculos de Moisés com o crime organizado. Informações sob análise da equipe de investigação indicam uma suposta ligação do empresário com a facção criminosa Comando Vermelho (CV).
Mortes suspeitas
Quatro dias após a morte de Geovane, o monitor da clínica Iago Marques Formiga, de 33 anos, desapareceu. O corpo do funcionário foi localizado no dia 19 de maio de 2026, carbonizado e com perfurações de arma de fogo na BA-530, em Camaçari. Parentes das vítimas suspeitam de relação entre os casos, enquanto a defesa da instituição classifica os fatos como uma “coincidência infeliz”.
O caso é apurado pela 20ª Delegacia Territorial (DT/Candeias), enquanto a morte do monitor é investigada pela 4ª Delegacia de Homicídios (DH/Camaçari).
