Aos cinco segundos do ar, Fulton J. Sheen sobe ao palco do Teatro Adelphi em Manhattan, veste batina e abençoa a plateia. Em tom sereno agradece e conquista audiência com discurso direto.
Faltavam 30 segundos para o começo da transmissão quando uma voz atravessou o Teatro Adelphi, em Manhattan. A plateia fez silêncio, os refletores iluminaram o palco e, cinco segundos antes de entrar no ar, uma música suave começou a tocar. Então Fulton J. Sheen apareceu, vestido com batina preta, capa episcopal, solidéu e uma cruz dourada sobre o peito. Fez uma reverência sob os aplausos, voltou o rosto para uma das três câmeras e disse que era grato por poder dirigir-se ao público.
“Amigos, obrigado por me permitirem entrar novamente em suas casas”
A imagem era improvável para o horário nobre da televisão norte-americana. Às terças-feiras, às 8 da noite, Sheen enfrentava nomes como Milton Berle e Frank Sinatra. Em quase meia hora diante das câmeras, ele falava praticamente sozinho, recorrendo de vez em quando a um quadro-negro para ilustrar suas ideias.
Life Is Worth Living (A Vida Vale a Pena) havia estreado em 12 de fevereiro de 1952 na rede DuMont, inicialmente em apenas três emissoras: Nova York, Washington e Chicago. A aposta da rede era modesta, mas o programa se expandiu: meses depois já chegava a 17 emissoras, recebia cerca de 8.500 cartas por semana e atraía mais de 2 milhões de telespectadores.
Setenta e quatro anos depois daquela estreia, a autobiografia de Fulton Sheen chega ao Brasil em setembro pela Minha Biblioteca Católica, com o título Tesouro em Vaso de Barro. O lançamento coincide com sua beatificação, marcada para 24 de setembro.
Antes de migrar para a televisão, Sheen acumulou mais de duas décadas de experiência no rádio. Professor de filosofia na Universidade Católica da América, em Washington, ele entrou no rádio em 1928 e, dois anos depois, passou a falar nacionalmente no programa The Catholic Hour, da NBC, onde permaneceu por cerca de 20 anos.
“A abordagem teve de ser diferente”
Sheen percebeu que trocar o rádio pela televisão exigia mudança de linguagem. No rádio, falava em nome de uma organização; na televisão comercial, procurou dirigir-se a católicos, protestantes, judeus e pessoas sem religião, partindo sempre de algo comum ao público para, daí, avançar a questões morais e religiosas. Segundo relatos das memórias, esse método trouxe resultado.
A aparência de improviso nas transmissões escondia preparação intensa. Sheen dedicava até 30 horas a um único programa, testava ideias com amigos e funcionários da emissora, fazia poucos apontamentos e ensaiava caminhando pelo escritório. Na véspera de cada programa, passava cerca de dez minutos em meditação. Ele afirmava que, em 25 anos de rádio e televisão, nunca havia terminado uma transmissão mais de dois segundos antes ou depois do horário previsto.
“O que mais chama atenção ao ler as memórias de Fulton Sheen é perceber que, para além do talento e do carisma, sua capacidade de comunicação era fundamentada em muito estudo.”
No primeiro ano na TV, Sheen recebeu o Emmy de personalidade televisiva de destaque. Ao receber o prêmio, agradeceu aos seus “quatro roteiristas” com uma frase que se tornou célebre.
“Mateus, Marcos, Lucas e João”
No auge, Life Is Worth Living chegou a um alcance estimado de 30 milhões de pessoas por semana, pela soma das transmissões em cerca de 500 emissoras de televisão e rádio. Um decreto de 2012 reconheceu as virtudes heroicas de Sheen, destacou seu uso da tecnologia para ampliar a mensagem cristã e o definiu como um “sincero apóstolo da era moderna”. Estudos da época de 1955 apontaram que o programa era tão popular quanto os seis programas religiosos seguintes somados, com 75% do público identificado como católico, 13% protestante e 8% proveniente de famílias com diferentes tradições religiosas.




