Ataque a escola de meninas no Irã deixa 168 mortas e expõe horror da guerra Ataque aéreo contra uma escola infantil feminina na cidade iraniana de Minab resultou na morte de 168 alunas e ferimentos em mais de 90 crianças, evidenciando a violência do conflito armado envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciado em 28 de março.
Ataque a escola de meninas no Irã deixa 168 mortas e expõe horror da guerra
Imagens de valas coletivas e caixões enfileirados, captadas durante o funeral realizado em 3 de abril, correram o mundo e reforçaram o impacto do episódio. Vestidos de preto, milhares de moradores compareceram à cerimônia, transformando o enterro em um ato de luto coletivo.
Especialistas lembram que, há décadas, violações de direitos humanos no Irã vêm sendo apontadas por potências ocidentais para justificar sanções econômicas. Dessa vez, porém, o primeiro alvo da ofensiva militar foi justamente um espaço dedicado à educação de meninas, algo que, para a socióloga Berenice Bento, da Universidade de Brasília (UnB), confirma que a atual guerra “não tem relação com democracia ou direitos humanos”.
Mulheres e meninas enfrentam restrições severas no país, incluindo o uso obrigatório do véu e limitações de mobilidade. Ainda assim, movimentos femininos como “Mulher, Vida e Liberdade”, criado em 2022 após a morte de Mahsa Amini, mantêm forte mobilização interna. A jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh destaca que essa luta é conduzida pela própria sociedade iraniana, sem clamor por intervenção externa.
Dados do Banco Mundial e da Unesco mostram avanços: a taxa de alfabetização feminina saltou de 30%, na década de 1970, para 85% nos anos 2000, e a participação delas nas universidades já ultrapassa 60%. No entanto, apenas 15% a 20% das mulheres participam do mercado formal de trabalho, sinalizando que conquistas na educação ainda não se convertem plenamente em oportunidades econômicas.
O ataque foi condenado por organismos internacionais. O alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu investigação rápida, imparcial e minuciosa. Washington afirma apurar o caso, enquanto Tel Aviv nega ligação com a ação.
Uma análise do New York Times, baseada em imagens de satélite e vídeos verificados, aponta que a escola sofreu golpe de precisão realizado no mesmo intervalo em que forças dos EUA atacavam uma base naval da Guarda Revolucionária Islâmica próxima ao Estreito de Ormuz. O major-general português Agostinho Costa, especialista em geopolítica, considera possível erro de alvo, citando a margem de imprecisão de mísseis Tomahawk.
Berenice Bento relaciona o episódio à “Doutrina Dahiya”, estratégia militar de Israel focada em destruir infraestrutura civil para pressionar populações locais a se voltarem contra seus governantes. Para a pesquisadora, o bombardeio de Minab repete a lógica aplicada anteriormente em Gaza e no Líbano.
Natália Ochôa, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, critica a retórica ocidental que apresenta mulheres muçulmanas como passivas e necessitadas de resgate. “Se educação é pilar da libertação, por que uma escola de meninas foi um dos primeiros alvos?”, questiona.
Enquanto EUA e Israel evitam assumir responsabilidade, a pressão por esclarecimentos cresce. Organizações de direitos humanos cobram que evidências sejam apresentadas e que os culpados sejam julgados, reforçando que ataques a instalações civis violam convenções internacionais.
A permanência da ativista iraniana Narges Mohammadi na prisão, apesar do Nobel da Paz de 2023, soma-se à indignação global. Observadores veem na tragédia uma ameaça às tímidas conquistas femininas no Irã e alertam para o risco de novos ataques a escolas, hospitais e outras estruturas civis.
O desfecho das investigações pode definir a escalada ou contenção do conflito. Enquanto isso, familiares das vítimas e movimentos sociais intensificam a mobilização por memória, justiça e defesa da educação, reivindicando vias diplomáticas em lugar de bombardeios.
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Crédito da imagem: Anadolu Agency/Reuters
Fonte: Anadolu Agency/Reuters
