Atualmente, cerca de 40 milhões de brasileiros realizam apostas em plataformas online, as chamadas bets. Essa estimativa, divulgada pela empresa Klavi, abrange tanto jogos de azar quanto apostas esportivas. Para se ter uma ideia da dimensão desse fenômeno, se esses apostadores formassem um estado, ele seria o segundo mais populoso do Brasil, perdendo apenas para São Paulo.
O aumento no número de apostadores tem sido significativo nos últimos anos. De acordo com pesquisas, o total de brasileiros que já apostaram em plataformas digitais mais que dobrou em apenas três anos. A Klavi estima que, atualmente, 74,29 milhões de pessoas já tenham realizado apostas, o que representa 34,8% da população. Em março de 2023, antes da regulamentação das casas de apostas online, aproximadamente 29,5 milhões de brasileiros afirmaram já ter apostado em eventos esportivos pela internet, segundo o instituto Paraná Pesquisas.
Lúcio*, um apostador de 26 anos, compartilha sua experiência. Ele começou a apostar há cinco anos, antes da legalização das plataformas, com um investimento inicial de R$ 50 em jogos de slots. Embora tenha começado por diversão, sua percepção mudou rapidamente. “Eu comecei por brincadeira mesmo. Colocava R$ 50, R$ 70 e ia dando certo, ia sacando. Só que aí comecei a querer apostar grande”, conta. Com o tempo, sua visão de apostas se transformou em uma tentativa de recuperar perdas, levando-o a contrair empréstimos para continuar apostando.
Os dados mostram que, antes da regulamentação das apostas esportivas em 2018, o Brasil não era um dos principais mercados de apostas online. Contudo, em 2025, o país já ocupava o quinto lugar no ranking mundial, movimentando cerca de R$ 360 bilhões, conforme estimativas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
“A legalização das apostas esportivas em 2018 não explica sozinha esse crescimento. O mercado se desenvolveu em um ambiente de baixa regulação e com a popularização do Pix, acesso a smartphones e marketing agressivo das plataformas”, afirma Andrei Kampff, advogado especialista em direito esportivo.
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Além de ser vista como uma forma de renda extra, muitos apostadores também buscam recuperar perdas financeiras por meio das apostas. Estudos indicam que três entre dez apostadores costumam solicitar crédito antes de fazer uma aposta, o que aumenta em 25% o risco de endividamento. Atualmente, 81,6% das famílias brasileiras estão endividadas, conforme a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).
Lúcio relata que conseguiu parar de apostar e excluiu suas contas nas plataformas, mas ainda enfrenta as consequências dos empréstimos contraídos durante seu período de apostas. “Diversas vezes me vi tentado a apostar mais para recuperar o valor, mas o medo de ficar pior com as dívidas falou mais alto”, diz ele.
Estatísticas do Procon-SP indicam que, entre 2025 e 2026, o percentual de apostadores que gastam mais de R$ 1 mil por mês em apostas aumentou de 18% para 30%. Casos como o de Lúcio ilustram essa realidade, com muitos apostadores se endividando na tentativa de recuperar perdas.
Para a psicóloga Regina Nicolosi, o uso frequente de crédito para apostas é um sinal preocupante. Ela enfatiza a importância de abordar os riscos associados às apostas e o impacto que isso pode ter nas finanças pessoais.











