Três cientistas da Chugai (Grupo Roche) foram homenageados em 2026 por criar um anticorpo biespecífico. Ele aproxima os fatores IX e X, substituindo a função do Fator VIII na hemofilia A.
Três pesquisadores ligados à Chugai Pharmaceutical, empresa do Grupo Roche, foram reconhecidos com o Prêmio Lasker-DeBakey de Pesquisa Médica Clínica de 2026. O prêmio destacou a invenção de um anticorpo biespecífico capaz de aproximar os fatores IX e X da coagulação e, assim, reproduzir a função do Fator VIII — proteína essencial que falta ou está em quantidade insuficiente em pessoas com hemofilia A.
Os cientistas premiados são o Dr. Kunihiro Hattori, o Dr. Takehisa Kitazawa e o Dr. Tomoyuki Igawa. O trabalho deles partiu da avaliação de milhares de combinações de anticorpos até chegar, em 2010, à identificação de um candidato com atividade semelhante à do Fator VIII. Estudos clínicos realizados posteriormente avaliaram a abordagem para a prevenção de sangramentos em pessoas com hemofilia A, inclusive naquelas que passaram a apresentar inibidores contra o Fator VIII.
Para entender a relevância da descoberta, é preciso considerar o funcionamento da coagulação. Quando ocorre um sangramento, proteínas do sangue atuam em sequência para formar um coágulo. O Fator VIII tem papel-chave nesse processo porque ajuda os fatores IX e X a trabalharem juntos. Na hemofilia A, a deficiência do Fator VIII compromete esse mecanismo e aumenta o risco de sangramentos.
O anticorpo biespecífico desenvolvido pelos pesquisadores age como um ligante entre os fatores IX e X, favorecendo a interação necessária para a formação do coágulo. Essa estratégia terapêutica oferece alternativa para a prevenção de sangramentos, especialmente em pacientes que desenvolvem anticorpos neutralizantes ao tratamento tradicional baseado em Fator VIII.
“O reconhecimento desses pesquisadores pelo Prêmio Lasker evidencia o papel da pesquisa clínica na evolução do cuidado em doenças raras. Na hemofilia A, décadas de estudos sobre os mecanismos da coagulação foram fundamentais para aprofundar a compreensão da doença e orientar a busca por novas abordagens. Esse percurso reforça a importância de investimentos contínuos em pesquisa, que permitem avaliar, de forma rigorosa, a segurança e a eficácia de novas estratégias e gerar evidências que contribuam para aprimorar o cuidado das pessoas que vivem com a doença”, afirma Michelle França, diretora médica da Roche Brasil.
A hemofilia é uma condição rara e hereditária que prejudica a capacidade de coagular o sangue. As pessoas com hemofilia podem apresentar sangramentos espontâneos ou prolongados após traumas. Existem duas formas principais: hemofilia A, causada pela deficiência do Fator VIII, e hemofilia B, relacionada ao Fator IX. A hemofilia A é a mais comum, representando cerca de 80% a 85% dos casos.
Segundo pesquisa anual da Federação Mundial de Hemofilia, estima-se que 1,125 milhão de pessoas tenham hemofilia no mundo, embora muitos casos ainda não estejam diagnosticados. A gravidade da hemofilia A varia conforme a quantidade de Fator VIII presente no sangue e pode ser classificada como leve, moderada ou grave. Sangramentos podem atingir articulações, músculos e outros tecidos, causando danos progressivos e comprometendo a mobilidade se não tratados adequadamente.
