Mil cantores lotaram a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora em Campinas para um ensaio guiado pelo maestro italiano. Interrompia trechos para corrigir entradas, afinação e expressão no 1º Congresso de Coros Litúrgicos.
Cerca de mil vozes se reuniram na Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, em Campinas (SP), e ouviram a condução precisa do monsenhor Marco Frisina. A mão direita do regente marcava tempos e compassos enquanto a esquerda apontava entradas e expressão: bastava um músico escapar de uma nota para que ele interrompesse, voltasse ao trecho a ser corrigido e fizesse recomeçar o ensaio.
Frisina esteve no Brasil como principal convidado do 1º Congresso Internacional de Coros Litúrgicos, realizado no fim de agosto. Durante três dias, cantores, regentes, pesquisadores, religiosos e músicos do país e da América Latina participaram de aulas, ensaios, celebrações e concertos. No sábado do evento, o maestro regeu quase 20 obras acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Indaiatuba, ao lado de órgão e solistas.
Aos 71 anos, o romano ocupa posição de destaque entre os compositores contemporâneos de música sacra. Formado no Conservatório de Santa Cecília, foi ordenado sacerdote em 1982 e fundou, em 1984, o Coro da Diocese de Roma, que atua principalmente nas celebrações do papa.
Frisina explicou que seu trabalho nasceu de uma inquietação em relação a um repertório mais leve e menos formal. Ele afirmou que buscou recuperar elementos tradicionais, sem copiar o passado, e criar composições novas que pudessem ser executadas em paróquias, com linguagem atualizada.
“Quando comecei, ainda havia aqueles cantos um pouco leves, não escritos de maneira profissional, de uma música em que não havia o coro, não havia o órgão, havia apenas o violão.”
“Ao contrário, quis restabelecer uma tradição, porém não olhando para trás, mas olhando para a frente.”
Ao longo da carreira, Frisina compôs mais de 700 cantos, muitos traduzidos e adotados fora da Itália. Sobre a escrita das peças, registrou outra orientação clara.
“A escrita dos cantos deve ser solene, mas simples.”
O trabalho do compositor está ligado às diretrizes do Concílio Vaticano II e, em especial, à constituição Sacrosanctum Concilium, promulgada em 1963, que preservou o canto gregoriano, manteve espaço para a polifonia e destacou a importância do órgão de tubos, ao mesmo tempo que incentivou a participação da assembleia e músicas adequadas a coros reduzidos.
Uma semana antes da passagem de Frisina pelo Brasil, Leão XIV retomou o documento em uma catequese dedicada à música sacra e defendeu composições de qualidade, acessíveis à assembleia e “além das modas”, próprias ao momento litúrgico.
“Faz parte da ação litúrgica e não é mero adorno da celebração”, afirmou o pontífice, ao pedir obras que preservem o patrimônio musical da Igreja e respeitem a sensibilidade contemporânea.
No congresso, Frisina rejeitou a ideia de que aproximar a música dos fiéis volte-se para as modas do momento e afirmou que os jovens continuam se interessando por peças mais próprias à liturgia. Ele citou, como exemplo, uma missa em latim composta para uma Jornada Mundial da Juventude que foi bem recebida pelo público jovem.
“A participação do povo no canto não significa que o compositor deve perseguir a moda do momento.”
“Eles querem algo que os faça rezar, é isso que deve ser compreendido.”
Danillo Del Chiaro, maestro da Paróquia Nossa Senhora do Brasil e um dos diretores do congresso, observou movimento de jovens interessados em estudar música litúrgica, embora muitas igrejas ainda mantenham poucos coros estruturados. Segundo ele, em várias comunidades voluntários assumem a música sem formação adequada, o que pode levar ao uso de critérios subjetivos na escolha de repertório.
“Há muito movimento de jovens que buscam estudar mais, aprender sobre música litúrgica.”
“Um voluntário pode, às vezes, tocar uma música apenas por gosto pessoal, mas, sem a formação adequada, pode acabar usando critérios subjetivos, o que não seria ideal.”
“Já com bastante estudo, o músico certamente irá oferecer, além de seu dom, uma verdadeira ajuda para que as pessoas rezem melhor e se santifiquem.”
Frisina também deixou claro que suas obras são destinadas a comunidades onde qualquer pessoa que goste de cantar possa participar, desde que haja preparação e ensaios; a condução, segundo ele, deve ficar a cargo de músico com formação e conhecimento litúrgico.
Em Campinas, a preparação para o concerto começou dias antes: o repertório exigiu domínio técnico e passou pelo latim, italiano, inglês e português. Entre as peças, houve um arranjo instrumental de Frisina para “Na Baixa do Sapateiro”, de Ary Barroso. Frisina já havia estado no país em 2019 e, um ano antes, a gravadora Paulinas-COMEP lançara “Eis-me Aqui, Senhor”.


