Ouvir sem julgar pode salvar vidas. Reconheça sinais como isolamento, mudanças de humor e falas de despedida. Busque ajuda profissional e mantenha contato com quem sofre.
Mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. No Brasil, nos últimos quatro anos, mais de 65 mil pessoas morreram por suicídio. O fenômeno é complexo e multideterminado: envolve fatores biológicos, ambientais, psicológicos e sociais, e não se trata de um episódio isolado, mas do resultado de um processo que vinha se desenvolvendo na vida daquela pessoa.
Quando refletimos sobre a finitude e o tempo vivido desde o nascimento, há espaço para pensar, sentir, falar e partilhar experiências. Ao longo dessa trajetória, criamos vínculos, nos aproximamos e nos afastamos, e nem sempre dividimos como nos sentimos. Essas vivências deixam marcas e podem, em alguns casos, abrir caminho para sentimentos de desesperança e perda de sentido.
Na prevenção, comunicar o que se está sentindo é um passo fundamental. Falar pode ajudar a confrontar pensamentos com a realidade, reduzir a dor e abrir caminhos para buscar auxílio especializado. A conversa pode ser o primeiro movimento para encontrar alternativas ao sofrimento que a pessoa está vivendo naquele momento.
Reconhecer sinais de alerta é parte essencial da prevenção. Pensamentos relacionados ao suicídio podem surgir em qualquer fase da vida, da infância ao envelhecimento, com manifestações e intensidades diferentes conforme o contexto. Alguns sinais merecem atenção: alterações importantes de comportamento, histórico familiar, tentativas anteriores de suicídio ou episódios de autolesão, ambientes familiares conflituosos ou pouco acolhedores, situações de violência, relacionamentos disfuncionais, impulsividade e uso de substâncias psicoativas.
Também podem ser sinais de alerta falar reiteradamente sobre suicídio, apresentar planos detalhados, despedir-se de pessoas, demonstrar alterações marcantes de humor ou acumular medicamentos. A presença ou a combinação desses fatores deve motivar uma aproximação cuidadosa, oferecendo espaço para conversar e disposição para ouvir.
Ao escutar alguém em sofrimento, evite julgamentos. Ouça mais do que fale, respeite o que a pessoa sente e procure compreender sua perspectiva: aquilo que ajuda uma pessoa pode não servir para outra. Evite respostas simplistas e conselhos baseados apenas em experiência pessoal. Esteja disponível para acompanhar quem precisa na busca por ajuda profissional.
Além da escuta atenta, é importante saber onde procurar apoio e facilitar o acesso ao tratamento. Sempre que necessário, oriente a pessoa para serviços de saúde, em especial na área de saúde mental, que realizam avaliação de risco e indicam acompanhamento adequado, considerando os recursos disponíveis na comunidade.
Onde buscar ajuda
- Centro de Valorização da Vida (CVV): atendimento pelo telefone 188 e pelos canais disponibilizados no site da instituição.
- Projeto Pode Falar: iniciativa voltada a adolescentes e jovens, com acesso também pelo Meu SUS Digital.
- Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do SUS: inclui serviços como Unidades Básicas de Saúde (UBS), Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), entre outros.
Cuidar da vida passa por buscar qualidade de vida, construir relacionamentos saudáveis e cuidar da saúde física e mental. Reconhecer o sofrimento, abrir espaço para a conversa e facilitar o acesso à ajuda adequada são atitudes que fazem parte da prevenção.
Maria Alice Scardoelli – CRM/SP 62580 | RQE 60533 Psiquiatra
