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Política

Converse hoje sobre doação de órgãos e salve vidas

Rafael Ramos
De Rafael Ramos
Publicado: 09/09/2026
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Converse hoje sobre doação de órgãos e salve vidas
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A decisão de doar só vale na prática se os familiares autorizarem: a lei brasileira exige aval da família para retirada de órgãos após a morte. Falar claramente com parentes aumenta muito a chance de salvar outras pessoas.

Falar sobre a própria morte costuma ficar fora das conversas em família. Planejamos o futuro, discutimos tratamentos e resolvemos questões financeiras, mas raramente dizemos algo simples: queremos ser doadores de órgãos.

“Se um dia for possível, quero ser doador de órgãos”

No Brasil, essa conversa tem importância prática. A legislação exige a autorização da família para a retirada de órgãos e tecidos após a morte. Mesmo quando alguém manifestou claramente a intenção de doar em vida, a retirada só ocorre com o aval dos familiares. Por isso, uma das atitudes mais eficazes de quem deseja doar é comunicar essa vontade às pessoas próximas.

O tema ganha destaque durante o Setembro Verde, mês de conscientização sobre doação de órgãos, e em 27 de setembro, Dia Nacional da Doação de Órgãos. Dados do Ministério da Saúde apontam que a recusa familiar permanece próxima de 45% dos casos, um dos principais obstáculos para ampliar o número de doadores no país.

O Brasil realiza muitos transplantes em termos absolutos, impulsionado pelo tamanho da população e pela estrutura do Sistema Único de Saúde. Quando os números são avaliados proporcionalmente ao total de habitantes, porém, o país fica atrás de nações com taxas mais altas de doação e transplante, indicando espaço para avanços.

Uma das dificuldades está no contexto em que a decisão é pedida à família. Raramente alguém está preparado para receber a notícia de uma morte próxima e, em seguida, ter de autorizar a doação. O momento é marcado por choque, sofrimento e dificuldades para assimilar informações.

Há ainda dúvidas sobre o que é morte encefálica. Trata-se da perda completa e irreversível das funções do cérebro e significa que a pessoa morreu. O fato de o coração poder bater temporariamente com suporte de aparelhos pode dar à família a impressão de possibilidade de recuperação, mas o diagnóstico segue protocolo médico rigoroso e critérios estabelecidos pelo Conselho Federal de Medicina. Uma vez confirmada a morte encefálica, não existe possibilidade de retorno à vida.

Desinformação, medo, crenças e o impacto emocional influenciam a decisão dos familiares. Ouvir, em vida, a vontade de doar torna a resposta dos parentes muito diferente do que quando a questão surge de surpresa.

Um único doador pode beneficiar várias pessoas. Dependendo das condições clínicas e das circunstâncias da morte, órgãos como coração, pulmões, fígado, rins, pâncreas e intestino podem ser transplantados, além de tecidos como córneas, pele, ossos, tendões, vasos e valvas cardíacas. Uma decisão familiar pode representar nova vida ou recuperação para muitas outras pessoas.

Existem mitos: a doação não altera o cuidado oferecido ao paciente antes da morte; equipes que diagnosticam e tratam seguem critérios independentes da possibilidade de transplante. A retirada dos órgãos ocorre em centro cirúrgico, o corpo é reconstruído e liberado à família.

Essa conversa também pode acontecer no consultório. Médicos clínicos, que acompanham pacientes por anos, podem abordar o tema no contexto de prevenção, envelhecimento, doenças crônicas e escolhas de saúde. O objetivo não é convencer, mas informar para que cada pessoa tome sua decisão e a compartilhe com quem terá de respeitá-la no futuro.

Falar sobre a morte não é aguardar por ela. Testamentos vitais, cuidados paliativos e preferências em situações graves são discutidos para respeitar a autonomia enquanto há tempo e tranquilidade. No caso da doação, a decisão de hoje pode determinar oportunidades de vida amanhã.

Se você deseja ser doador, não é preciso esperar pelo Dia Nacional da Doação de Órgãos. Escolha um momento tranquilo e diga à sua família. Pode ser uma conversa breve que, no futuro, ajudará parentes a tomar uma decisão muito difícil — e permitirá que outras vidas prossigam.

Dr. Alfredo Salim Helito — CRM/SP 43163 | RQE 132808. Clínica Médica. Membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês. Head nacional de Clínica Médica da Brazil Health.

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