Abster-se transfere o poder de escolher para outros. Há diferenças claras entre propostas sobre impostos, segurança e previdência – decidir faz diferença.
Existe um tipo de eleitor que se considera acima da eleição. Repete que são todos iguais, que o voto não muda nada, que política não é com ele. A impressão de lucidez, porém, esconde uma transferência gratuita do poder de decisão para quem tem paciência de acordar cedo num domingo.
Três desculpas que não resistem a dois minutos de análise
- “São todos iguais”: não são. Em 4 de outubro estarão em disputa candidatos com projetos opostos sobre carga tributária, segurança pública, previdência e papel do Estado na economia. Dizer que todos são ruins é uma opinião; dizer que são idênticos é preguiça travestida de ceticismo.
- “Um voto não muda nada”: não é verdade em todos os casos. Em 2020, na cidade de Kaloré (PR), dois candidatos a prefeito terminaram com 1.186 votos cada. A prefeitura foi definida pelo artigo 110 do Código Eleitoral, que manda eleger o mais idoso em caso de empate. Nas municipais de 2016, seis cidades elegeram prefeito por um único voto de diferença — em todas elas, um eleitor a mais poderia ter mudado a história.
- “Política não é assunto meu”: é sim. Preço de combustível, fila de exame, quanto sobra do salário após impostos, tempo e custo para abrir uma empresa — tudo isso é resultado de decisões políticas. Quem se declara alheio continua pagando a conta, só que sem opinar.
É importante lembrar que o direito ao voto na forma atual tem menos de quarenta anos. Em 25 de abril de 1984 faltaram 22 votos na Câmara dos Deputados para aprovar a emenda que devolveria a escolha direta do presidente; o país voltou a eleger presidente por voto direto em 1989. Mulheres passaram a votar em 1932, e os analfabetos recuperaram o direito de votar com a Emenda Constitucional 25, de maio de 1985. A Constituição de 1988 consolidou o voto universal. Cada uma dessas datas foi fruto de organização e luta sem garantia de vitória.
Cargos em disputa no dia 4 de outubro
- Deputado estadual (ou distrital) — vota o orçamento de saúde e educação do estado.
- Deputado federal — pode aprovar ou travar reformas tributária e trabalhista e o marco regulatório.
- Dois senadores — aprovam indicações para tribunais superiores e agências reguladoras.
- Governador — administra políticas estaduais e orçamentos.
- Presidente da República — chefia o Executivo federal. Se governador ou presidente não alcançarem maioria absoluta dos votos válidos, os dois mais votados voltarão à urna em 25 de outubro.
Muita gente chega decidida quanto ao voto para presidente e improvisa os demais cinco cargos na fila. Esses votos improvisados são justamente os que mais interferem no dia a dia. Quinze minutos de pesquisa sobre o histórico dos candidatos já colocam o eleitor à frente de boa parte de quem comparece sem preparo.
O dia 12 de outubro cai numa segunda-feira em 2026 e costuma encher a estrada. Mesmo assim, 4 e 25 de outubro são domingos, com data marcada há meses. Quem programa viagem sabendo que ela atropela a eleição não teve azar: tomou uma escolha. Quem estiver fora do município do título pode justificar a ausência e terá até 60 dias após cada turno para regularizar a pendência com a Justiça Eleitoral — a justificativa, porém, não devolve o voto.
Na urna, o chefe e o empregado apertam a mesma sequência de teclas: não existe voto premium. Se você acha que segurança pública precisa melhorar, que o custo de fazer negócio é insustentável ou que a saúde do município é precária, existe um domingo em que essa opinião vira número dentro de um sistema que é obrigado a contá-la. Fora dali, permanece conversa de mesa.
Pesquise, anote os números, leve os seis votos decididos de casa e compareça nos dois turnos. Não porque a lei manda, mas porque a alternativa é passar quatro anos reclamando de decisões que você teve a chance de influenciar e escolheu não influenciar.
