A imagem heroica do príncipe contrasta com cartas e depoimentos da época. A separação de Portugal naquele dia foi marcada por estradas enlameadas, cansaço e improviso — longe do glamour oficial.
A imagem do príncipe regente empunhando a espada sobre um cavalo elegante tornou-se símbolo da independência, mas os relatos e documentos da época mostraram uma cena bem diferente. O rompimento com Portugal, naquela tarde às margens do riacho do Ipiranga, foi marcado por improviso, cansaço e circunstâncias práticas muito afastadas do glamour consagrado pela iconografia oficial.
Ao examinar testemunhos e correspondências, o cenário se apresentou mais humano: a comitiva seguia por estradas de terra enlameadas depois de uma jornada cansativa, em que as dificuldades de locomoção e o relevo tornavam difícil o uso de cavalos. Por isso, era comum o uso de mulas como montaria, e as roupas adotadas eram simples, próprias para enfrentar barro e poeira — nada a ver com uniformes de gala retratados em pinturas.
O quadro que mais influenciou o imaginário público foi a tela pintada por Pedro Américo, intitulada “Independência ou Morte”, concluída em 1888 em Florença. A obra buscou criar um símbolo visual poderoso para a monarquia, recorrendo a referências da pintura histórica europeia, com cavalos puro-sangue, guarda numerosa e trajes de gala que não refletiam a realidade daquele dia.
Relatos da comitiva também destacaram questões de saúde do príncipe regente. Segundo documentos e relatos de membros da comitiva, como o coronel Manuel Marcondes, Dom Pedro I sofria de distúrbios gastrointestinais naquele dia. Acreditava-se que água contaminada ou alimento mal conservado ingerido no litoral havia causado o mal-estar, o que obrigou o príncipe a paradas frequentes no matagal à beira da estrada.
A decisão de separar o Brasil de Portugal não surgiu como um gesto isolado e meramente simbólico. Enquanto Dom Pedro estava em São Paulo, o quadro político no Rio de Janeiro era tenso: as Cortes de Lisboa haviam enviado decretos exigindo o retorno do príncipe e retirando autonomia administrativa. Na ausência do marido, a princesa Maria Leopoldina convocou o Conselho de Estado no início de setembro e, junto com o ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, avaliou que a separação era inevitável.
Cartas urgentes foram enviadas com mensageiros para alcançar a comitiva. Os mensageiros alcançaram o grupo quando havia uma pausa nas proximidades do riacho do Ipiranga. Após a leitura das correspondências da princesa e do ministro, que alertavam para a perda iminente de poder e a necessidade de ação imediata, o príncipe decidiu romper os laços administrativos com Portugal — um desdobramento político e estratégico acelerado pelas informações trazidas pelas cartas, e não apenas um ato estético planejado.
Sobre as palavras exatas ditas naquele momento, não há consenso absoluto entre historiadores. Registros da época variaram. Enquanto a frase curta e impactante “Independência ou morte” ficou popularizada, documentos como o do padre Belchior apontaram para uma formulação mais longa.
“Nada mais quero com o governo português e proclamo o Brasil, para sempre, separado de Portugal”
Além disso, a princesa Maria Leopoldina assinou o decreto que oficializava a separação em 2 de setembro de 1822, durante reunião do Conselho de Estado no Rio de Janeiro, enquanto exercia a regência interina. Esses elementos mostram que a proclamação foi fruto de um processo político, com articulação e decisões tomadas em diferentes frentes, mais do que de uma cena única e teatral.
