A empresa Camilo Comércio e Serviços, conhecida pelo nome fantasia World Cannabis, movimentou R$ 6,1 milhões em uma conta do Banco de Brasília (BRB) entre 2023 e 2025. Documentos e relatórios sobre as operações apontaram valores muito acima da receita operacional declarada ao banco.
A firma foi registrada em 25 de abril de 2023 com capital social de R$ 10 mil. O empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, detinha 90% do capital, e o filho dele, Romeu Carvalho Antunes, possuía os outros 10%.
Os papéis mostram ainda que havia a intenção de usar a empresa para operações ligadas à venda de canabidiol ao Ministério da Saúde, em um volume estimado em R$ 626 milhões. As movimentações financeiras pela conta da World Cannabis destoavam da receita operacional bruta de R$ 2.765,70 que foi declarada ao banco.
O relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicou que a conta recebia e enviava recursos principalmente por meio de transferências entre firmas associadas aos próprios sócios. Empresas ligadas ao empresário, como Prospect Consultoria e Brasília Consultoria Empresarial, fizeram depósitos e recebimentos frequentes com a World Cannabis, com algumas operações superiores a R$ 100 mil.
Em 31 de março de 2025, a World Cannabis efetuou uma transferência de 70.653,87 euros para a Foliumed, em Madri, valor que correspondia a cerca de R$ 451 mil na cotação da época. A Foliumed informou que o pagamento era por serviços de consultoria técnica. A corretora Daycâmbio considerou a operação atípica, recusou a transferência e comunicou o caso ao Coaf.
Essa operação ocorreu no mesmo período em que houve mudança do filho do presidente para a Espanha; a Foliumed tem sede a cerca de 1,3 km de uma empresa ligada ao filho do presidente e a aproximadamente 15 km da residência dele no país.
Os documentos também apontaram uma triangulação envolvendo recursos de aposentados. Em 24 de outubro de 2024, a Associação Brasileira dos Aposentados e Pensionistas da Nação (Abapen) transferiu R$ 625.962,50 para a Prospect Consultoria; em seguida, a Prospect repassou R$ 100 mil para a World Cannabis. O relatório indicou ausência de justificativa econômica que explicasse esses créditos.
O Banco de Brasília considerou que a movimentação registrada na conta da World Cannabis era incompatível com a capacidade financeira declarada pela empresa. As autoridades de controle foram notificadas sobre as operações e registraram os indícios apontados nos relatórios.

