O governo americano diz que o pacto traz salvaguardas contra proliferação e prevê dois documentos técnicos. A assinatura ocorre em meio a tensões com o Irã e negociações de paz paralisadas.
Os Estados Unidos anunciaram, nesta quarta-feira (22), a assinatura de um acordo com a Arábia Saudita para estabelecer um programa nuclear civil no país do Golfo. O governo americano assegurou que o acordo inclui salvaguardas para prevenir a proliferação nuclear.
Este entendimento acontece em um contexto de tensões entre os EUA e o Irã, intensificadas sob a presidência de Donald Trump. As preocupações sobre o programa nuclear iraniano têm sido um tema central nas negociações de paz, que atualmente se encontram paralisadas.
O acordo inclui dois documentos: um sobre “cooperação nuclear para fins pacíficos” e outro sobre “salvaguardas bilaterais”. Os acordos foram assinados pelo secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, e pelo príncipe Abdulaziz bin Salman, ministro de Energia da Arábia Saudita, conforme informações do Departamento de Energia dos EUA.
“Esses dois acordos estabelecem, em conjunto, a base jurídica para uma parceria de várias décadas e de bilhões de dólares, que impulsionará diversos objetivos econômicos e estratégicos prioritários, incluindo a não proliferação nuclear”, afirmou um comunicado oficial.
Uma das cláusulas do acordo poderá permitir que empresas americanas construam uma usina de enriquecimento de urânio na Arábia Saudita, embora o comunicado oficial não tenha mencionado esse ponto. O Departamento de Energia não comentou sobre a possibilidade após consultas.
O Congresso dos Estados Unidos deverá analisar o acordo, mas é considerado improvável que o Legislativo, controlado pelos republicanos, atrase sua implementação. Entretanto, parlamentares americanos e autoridades israelenses expressaram oposição a um programa nuclear civil saudita, temendo que isso possa facilitar o desenvolvimento de armas nucleares.
A Arábia Saudita, assim como o Irã, defende seu direito de desenvolver um programa nuclear para fins civis. No ano passado, o país assinou um pacto de defesa mútua com o Paquistão, que possui armamento nuclear.
Nos últimos anos, Washington tem buscado integrar acordos relacionados à questão nuclear em uma estratégia mais ampla, que inclui a normalização das relações entre a Arábia Saudita e Israel e a assinatura de um pacto de defesa com os Estados Unidos.
Em 2009, os EUA já haviam firmado um acordo nuclear com os Emirados Árabes Unidos, embora este país não enriqueça seu próprio urânio. Recentemente, um drone causou um incêndio próximo à usina nuclear de Barakah, a única do mundo árabe.
Antes do anúncio do acordo, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, minimizou os temores de que a iniciativa pudesse levar à proliferação nuclear no Golfo. Chris Wright também reiterou que o acordo atende a interesses econômicos e estratégicos dos EUA.
“Podem ter certeza de que esses acordos cumprem os mais elevados padrões de segurança nuclear e de não proliferação e que se baseiam na melhor tecnologia e nos melhores cientistas nucleares do mundo, desenvolvidos aqui mesmo nos Estados Unidos”, afirmou Wright.
Com a escalada dos combates entre os Estados Unidos e o Irã desde 7 de julho, as preocupações sobre a desestabilização da região aumentam. Os aliados do Irã, os rebeldes houthis, têm realizado ataques, colocando em risco uma trégua estabelecida em 2022.
Jennifer T. Gordon, diretora da Iniciativa de Política de Energia Nuclear do Atlantic Council, comemorou o acordo como uma “vitória para os Estados Unidos diante da Rússia e da China”.
“A Arábia Saudita deixou claro que comprará tecnologias de energia nuclear e implementará um programa nuclear civil; a única questão era se o reino optaria por trabalhar com os Estados Unidos e seus aliados ou se recorreria à Rússia ou à China”, destacou.
