Você já parou para pensar em quem realmente exerce mais influência sobre sua vida atualmente: o presidente da República ou um algoritmo? A resposta pode parecer óbvia, mas ao refletir um pouco mais, você pode se surpreender.
Imagine a seguinte situação: o presidente anuncia uma medida econômica significativa. O Congresso inicia debates, e o Supremo Tribunal Federal pode ser chamado a se pronunciar sobre a constitucionalidade da medida. Parece que tudo segue o processo democrático tradicional. Contudo, enquanto isso, algoritmos estão moldando a experiência de milhões de brasileiros, decidindo quais notícias aparecem nas telas de seus celulares, quais narrativas ganham destaque e quais assuntos são apagados do debate público, tudo isso sem necessidade de voto ou mandato.
Assim, surge a questão: quem realmente teve mais influência naquele dia? Embora o Estado continue a desempenhar funções essenciais, como a cobrança de impostos e a manutenção das Forças Armadas, a dinâmica do poder mudou. Nos últimos séculos, a força foi a principal forma de exercer poder, mas hoje, a influência também se tornou uma forma de poder. Controlar informações, dados e plataformas digitais passou a impactar decisões políticas, econômicas e sociais de maneira sem precedentes.
Corporações privadas têm acesso a informações detalhadas sobre bilhões de pessoas, conhecendo nossos hábitos, preferências e até medos. As decisões tomadas em ambientes corporativos agora podem rapidamente afetar eleições, mercados e até mesmo relações internacionais. O mais impressionante é que essa transformação ocorreu sem revoluções, golpes de Estado ou novas constituições; as instituições permaneceram praticamente inalteradas, enquanto o poder se deslocou.
A democracia nasceu da desconfiança em relação ao poder absoluto, o que levou à criação de sistemas de freios e contrapesos. O objetivo sempre foi evitar que um governante acumulasse poder demais. Porém, essa preocupação, embora ainda válida, já não é suficiente. Grandes corporações hoje têm valores de mercado que superam a economia de muitos países e detêm informações sobre indivíduos que rivalizam com o que o próprio Estado conhece.
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Essas empresas não concorrem em eleições e não respondem a eleitores, mas têm uma enorme influência sobre a vida cotidiana. Isso levanta uma questão inevitável: quem controla esse novo poder? Curiosamente, toda vez que surge a discussão sobre a necessidade de mais transparência e responsabilidade para essas corporações, as reações normalmente são de acusações de censura. Essa dinâmica impede que o debate avance, substituindo argumentos por rótulos.
A pergunta que não quer calar é: desde quando a defesa de limites ao poder se tornou incompatível com a democracia? O presidente, o parlamentar e o juiz prestam contas de suas ações; por que as empresas que influenciam eleições e moldam comportamentos não deveriam fazer o mesmo?
Confundir controle com censura é um erro que beneficia quem já possui poder concentrado. A democracia foi criada para prevenir abusos de qualquer tipo de poder, seja ele público ou privado. Portanto, ao considerar que qualquer tentativa de responsabilizar grandes plataformas é censura, estamos conferindo a essas corporações uma imunidade que não existe para autoridades públicas.
Devemos aceitar que um presidente e um ministro do Supremo sejam fiscalizados, mas é essencial que também questionemos o papel de empresas que têm um impacto tão significativo na informação consumida por bilhões de pessoas.
O desafio do século XXI não reside em escolher entre Estado e mercado, liberdade e controle, ou censura e falta de regras. O verdadeiro desafio é impedir que qualquer poder, seja ele público ou privado, se torne grande demais para prestar contas. Poderes que não são questionados deixam de ser instrumentos da sociedade e passam a servir apenas a si mesmos.
Embora o poder tenha mudado de endereço, nossas instituições ainda parecem bater à porta da antiga casa.
