O estado nutricional do paciente influencia diretamente o sucesso de cirurgias digestivas. Corpo sem reservas adequadas eleva riscos e retarda a recuperação.
Imagine começar uma maratona sem ter treinado adequadamente, dormindo mal e se alimentando de forma inadequada nas semanas que antecedem a prova. Para muitas pessoas, uma cirurgia digestiva pode se assemelhar a essa situação: o procedimento é necessário, a equipe médica está preparada, mas o corpo do paciente pode não ter reservas suficientes para enfrentar o esforço da operação.
Um fator que muitas vezes passa despercebido pelos pacientes é o estado nutricional e muscular antes da cirurgia. Geralmente, ao pensar nos riscos de um procedimento cirúrgico, as pessoas se concentram apenas na complexidade da operação ou na gravidade da doença. No entanto, a desnutrição e a sarcopenia, que é a perda progressiva de massa e força muscular, merecem atenção especial.
Pacientes com câncer, doenças crônicas ou que vão se submeter a cirurgias de maior porte, frequentemente, enfrentam a desnutrição. É importante ressaltar que uma pessoa pode ter um peso aparentemente normal, mas ainda assim apresentar pouca reserva muscular, o que pode aumentar os riscos no pós-operatório.
Durante a cirurgia, o organismo do paciente passa por um grande estresse. A resposta inflamatória e o gasto metabólico aumentam, levando à rápida perda das reservas do corpo. O músculo não é apenas responsável por atividades físicas; ele é fundamental para a cicatrização, combate a infecções, respiração adequada e recuperação funcional. Assim, pacientes que chegam fracos para a cirurgia têm um risco maior de complicações.
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Estudos mostram que a sarcopenia está associada a um maior risco de complicações graves, tempo de internação prolongado e chances elevadas de readmissão hospitalar. É possível, no entanto, identificar e reduzir esse risco antes do procedimento. A avaliação pré-operatória deve englobar aspectos como perda de peso recente, diminuição do apetite e sinais de perda muscular.
A boa notícia é que a otimização do estado nutricional antes da cirurgia pode fazer uma diferença significativa. O conceito de pré-habilitação tem ganhado destaque, que envolve preparar o paciente para a cirurgia por meio de orientações nutricionais, exercícios físicos e suporte psicológico. Estudos indicam que esse preparo pode reduzir complicações e promover uma melhor recuperação funcional no pós-operatório.
A mensagem é clara: chegar bem à cirurgia é parte fundamental do tratamento. Pacientes devem se sentir à vontade para perguntar aos seus médicos sobre seu estado nutricional, se houve perda muscular e como se preparar adequadamente por meio de uma alimentação saudável e exercícios físicos. Um corpo bem nutrido e forte está mais apto a enfrentar a cirurgia e retornar para casa com segurança.
Dra. Andréa Furlan – CRM 97345 | RQE:115611
Cirurgiã do aparelho digestivo, cirurgia bariátrica e metabólica, e endoscopia digestiva pelo Hospital das Clínicas da FMUSP. Pós-graduada em Nutrologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP.
