A recente decisão do governo dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas gerou um amplo debate sobre a soberania do Brasil. Especialistas em geopolítica, economia e relações internacionais analisam que essa medida reflete uma nova abordagem da administração Trump em relação à América Latina, conhecida como “soberania limitada”.
De acordo com os analistas, essa decisão pode subordinar as políticas internas do Brasil aos interesses dos EUA, oferecendo uma justificativa para possíveis intervenções políticas no país. O professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Borba Casella, destaca que a classificação permite ao governo americano agir contra essas facções sem a necessidade de uma declaração formal de guerra ou autorização do Congresso.
“O enquadramento como organização terrorista, pela lei americana, permite que o governo dos EUA ataque agentes de tais entidades, sem necessidade de declaração de guerra, nem autorização do Congresso dos EUA”, afirma o especialista.
O cientista político Francisco Carlos Teixeira da Silva também comenta que essa decisão se alinha à estratégia de “soberania limitada” promovida pelo governo Trump, que busca reafirmar a influência norte-americana na região. Segundo ele, a nova estratégia de segurança nacional dos EUA, publicada em novembro de 2025, estabelece que o país deve manter sua proeminência na América Latina, o que pode levar a intervenções diretas.
Teixeira ressalta que essa postura agressiva da política externa dos EUA é uma resposta à crescente influência da China na economia global. Ele cita o caso do México, onde facções locais foram igualmente classificadas como terroristas, resultando em ações de inteligência sem a autorização do governo mexicano.
“Logo em seguida, os EUA enviaram uma equipe da CIA [Agência de Inteligência dos EUA] para dentro do México sem autorização. Os exemplos imediatos desses meses mostram que a classificação [de organizações como terroristas] não vem sozinha, ela vem com consequências”, completa Teixeira.
O professor Luiz Carlos Prado, da UFRJ, também destaca que essa decisão representa uma tentativa de impor uma soberania limitada ao Brasil, subordinando suas políticas internas aos interesses dos EUA. Ele alerta que a designação de facções como terroristas pode abrir precedentes para que grupos internos, como movimentos sociais, sejam rotulados de forma similar, sem a necessidade de comprovação.
“Os EUA podem, de alguma maneira, designar ou indicar que determinados grupos internos, por razões políticas, dão apoio a essas organizações, agora consideradas terroristas por Washington”, afirma Prado.
Além disso, Prado ressalta a histórica dificuldade dos EUA em reconhecer a soberania de outros países e a tendência de justificar intervenções com base em alegações não comprovadas. Essa decisão, segundo ele, aumenta a margem de manobra para pressão sobre o Brasil, perpetuando uma tradição de intervenções norte-americanas que buscam justificar ações políticas em nome da segurança.
