Integração Brasil-África: governo Lula expande acordos estratégicos
Integração Brasil-África ganha novo fôlego com sucessivas missões presidenciais, assinatura de memorandos e relançamento de programas científicos que reforçam laços históricos, culturais e comerciais entre os dois lados do Atlântico.
Viagens e diplomacia de alto nível
Desde o início do terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou sete países africanos – duas vezes a África do Sul, além de Angola, São Tomé e Príncipe, Egito, Etiópia e Moçambique. No sentido inverso, seis chefes de Estado africanos passaram por Brasília, entre eles Patrice Talon (Benim), Bola Tinubu (Nigéria) e João Lourenço (Angola). Esses encontros resultaram em acordos de cooperação que abrangem agricultura, defesa, saúde, educação, turismo e aviação civil.
O embaixador Carlos Sérgio Sobral Duarte, secretário de África e Oriente Médio do Ministério das Relações Exteriores, destacou que o protecionismo de países desenvolvidos incentiva o Brasil a buscar novos mercados. “Os países africanos reúnem população jovem, alto potencial de consumo e taxas consistentes de crescimento”, afirmou, durante seminário do Itamaraty realizado em 25 de maio.
Comércio em ascensão, porém ainda modesto
Em 2025, o continente respondeu por 5,70 % do fluxo comercial brasileiro, somando US$ 23,7 bilhões e saldo positivo de US$ 7,2 bilhões para o Brasil. Embora a participação seja menor que a da Europa (31,95 %) e da América do Sul (17,28 %), houve avanço de 52 % desde 2020. O governo aposta em feiras de negócios e missões empresariais para reduzir o “desconhecimento mútuo” citado pelo Itamaraty.
Segundo dados da Organização Mundial do Comércio, consultados pela Agência Brasil, a África concentra mais de 1,5 bilhão de habitantes, dos quais 60 % têm menos de 25 anos, fator que amplia oportunidades em energia, infraestrutura e economia digital (WTO).
Cultura, memória e reparação histórica
Parcerias recentes também buscam resgatar o passado comum de Brasil e África. Em abril, o Ministério da Cultura firmou com Angola um programa de integração de acervos sobre o tráfico transatlântico de escravos, além de projetos conjuntos nas artes. Na cerimônia do Dia da África, o embaixador de Camarões, Martin Agbor Mbeng, agradeceu o apoio brasileiro na ONU para reconhecer a escravidão de africanos como crime contra a humanidade.
Ciência, tecnologia e inovação colaborativa
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação relançou o Programa ProÁfrica, parado desde 2011. Serão aplicados R$ 25 milhões em pesquisas voltadas a meio ambiente, energia, agro e saúde. Outro edital, divulgado em abril, destina R$ 50 milhões à capacitação de 2 mil técnicos e agricultores africanos, conectando laboratórios brasileiros, como a Embrapa e a Fiocruz, a centros de pesquisa no continente.
A ministra Luciana Santos afirmou que “o compromisso presidencial com ciência e inovação cria soluções conjuntas para desafios compartilhados”. Pesquisadores do Núcleo de Estudos sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS) defendem foco especial na adaptação da agricultura às mudanças climáticas, área em que o Brasil pode oferecer biotecnologia de ponta.
Desafios e próximos passos
Especialistas lembram que os valores atuais não se comparam aos financiamentos robustos dos anos 2000, quando Petrobras e BNDES impulsionaram obras de infraestrutura no continente. Ainda assim, Lula defende a retomada gradual desses investimentos, condicionada ao equilíbrio fiscal interno. Para a professora Elga Lessa, da Universidade Federal da Bahia, “novos aportes dependerão de criatividade financeira e parcerias que reduzam riscos”.
Embora existam incertezas, o governo aposta na convergência entre cultura, comércio e ciência para consolidar uma presença sustentável na África. A continuidade desse movimento tende a redefinir a posição do Brasil no Sul Global, ampliando mercados e fortalecendo sua diplomacia multilateral.
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Crédito da imagem: Agência Brasil
Fonte: Agência Brasil
